OPINIÃO
A PAISAGEM E A RELAÇÃO COM OS HÁBITOS HUMANOS
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É fato que a sociedade deixa marcas no lugar em que habita. Por conta disso a paisagem tem despertado a atenção de vários profissionais para compreender e interpretar o passado humano, por meio das marcas existentes em determinados lugares ou mesmo para perceber uma tendência.

A região Norte do Espírito Santo por exemplo, passou por uma considerável modificação paisagística na sua rede hidrográfica. Quem viveu nos municípios do Norte do Espírito Santo nos anos 80 e mudou-se da região, ao retornar após ter passado os últimos 40 anos, deve ficar surpreso em relação ao que vê da paisagem hídrica (o que vê das nascentes, córregos e rios).  No lugar de diversas nascentes, pequenos cursos de água que corria pelos grotões e ganhavam o vale, em muitos casos conduzido por manilhas, toras ocas, passando por baixo de pequenas pontes de madeira para proporcionar aos pequenos cursos de água atravessar a estrada sem atrapalhar o trânsito das pessoas e automóveis no dia a dia.  Essa paisagem deixou de existir em aproximadamente 80% da região Norte. O que ocorreu? Encontra-se hoje aterros, barragem de terra ou de alvenaria (cimento, pedra e ferragem) de diferentes tamanhos (pequenas, médias e grandes represas).

Os lindos poços, dos cursos de águas naturais (córregos e rios) existentes nos anos 80 e usados na pesca de anzóis e no lazer (tomar banho) pelas comunidades locais, ou mesmo para os afazeres domésticos como lavar vasilha e roupas, em sua maioria hoje estão compondo os espaços ocupados por águas de represas.

Muitos córregos com os seus cursos tortuosos, comum nos anos 80, na paisagem da região Norte do Espírito Santo, não existem mais. Portanto, eles estão presentes só no imaginário de muitos que por aqui testemunhou a existência deles e o modo de vida daquela época. Quantas coisas mudaram, junto com a paisagem da rede hidrográfica (os córregos e nascentes) aqui na região Norte do Espírito Santo?

Nas práticas agrícolas desse espaço - Norte do Espírito Santo - deixaram de existir as plantações de arroz, de milho, feijão entre outros cultivos como a bananeira, o inhame, a taioba e a cana de açúcar praticada comumente nos grotões úmidos das pequenas nascentes, em mais de 70% das pequenas propriedades, se comparados aos cultivos existentes nos anos 80. No lugar dessas culturas de subsistência entrou os lagos artificiais ou represas de hoje, as pastagens do quicuio, ou a braquiária. Nos denominados brejos (várzea - espaços de águas estagnadas) a braquiária, reina (gramínea) substituindo as vegetações nativa da época como a cebola, a taboa, a quaresmeira, samambaias e pequena palmeiras que existiam, típicas do ambiente de várzea no norte do Espírito Santo. Substituiu também a cultura do arroz, que ocupava esses espaços.

Tempo (...). Ah sim! O tempo, as práticas e atividades agrícolas e mesmo os hábitos da população mudam. Diz-se: “os tempos são outros’. De fato! Mas, que relação essa mudança na paisagem tem a ver com nosso curso civilizatório, o fazer (trabalho/lazer/habitar/consumir/vender/comprar) diário que dá origem a paisagem existente hoje e o que a população expressa em hábitos?

Em uma observação mais atenta podemos perceber: como a monocultura do café conilon avançou e deixou nossa sociedade economicamente muito mais dependente dela; a criação de gado bovino também expandiu na região; a sociedade mudou seus hábitos: a lavagem de roupa e vasilhas são realizadas graças ao desenvolvimento, na maioria das famílias dentro das residências ou em estruturas de pias e tanques próximas as residências; a criação de peixes passou ser comum nas pequenas, médias e grandes propriedades. Mesmo que não seja uma criação profissional para fins comerciais.

Muitas represas são povoadas por peixes advindos da ação de enchentes que destruíram barragens de aterros em lugares posicionadas em cabeceiras dos antigos cursos d`água e alguns peixes, se não todos, passam para a barragem dos vizinhos ou chegam até aos rios, levando a um povoamento por peixes que não existiam no passado.

A pesca e os banhos realizados nos cursos dos córregos nos anos 80, agora é feita nas represas, esse se tornou mais raro pois, a água de represa e poços cavados na sua maioria não atrai o banhista. Seu aspecto visual provoca suspeita ao pretendente. Gigoga; aspecto escuro da água- ferrugem, lama acumulada no fundo - tudo isso inibe o desejo e desestimula a população e esse hábito salutar dos anos 80, tudo isso se torna fatores desestimuladores do “banho de diversão”.  A fauna sofreu alteração. Sim, o peixe- cobra que era adaptado aos pequenos cursos de água limpas; afluentes dos rios Cricaré, Muniz, Rio XV e Cotaxé e outros afluentes dos rios da região Norte de Espírito Santo está cada vez mais raro; Já o bagre africano, esse que nem era daqui da região, povoou os poços e represas e rios em uma quantidade quase semelhante a traíra. Essa última se multiplicou pelos diversos poços. Outras espécies de peixes chegaram as propriedades e tornaram comum sua comercialização na feira e comércio da região como, o tambaqui, o pacu; o tambacu, a carpa e a tilápia. Nos dias de hoje é mais comum a existência desses peixes nas propriedades do que a galinha caipira, que outrora não faltava no terreiro de quase nenhum proprietário. O que essa nova paisagem expressa de nossos hábitos: o café, o porco, a galinha e o boi faziam parte da paisagem e foi incorporado em nossos hábitos alimentares e mesmo no trabalho, no caso do boi. Atualmente a criação de peixe ou a existência dela na região está estimulando a população do Norte do Espírito Santo a consumir mais peixe em sua dieta diária. Pois, com as represas que na sua maioria foi construída para reservar água e sustentar a prática da irrigação das culturas de café, pimenta e pastagens e outras agregou a função de pequenas criações de peixes e são usados no sustento das famílias e em alguns casos como fonte de renda também. Essas mudanças possuem um custo ambiental. A água que temos hoje em nossos açudes (represas, barragens, poços) tem a mesma qualidade que as águas dos córregos e rios? Certamente não.  Os riscos que temos em poluir as águas aumentaram, com o uso de agrotóxicos uados no combate a pragas e doenças e com a adubação química de lavouras? Certamente Sim. O que podemos fazer para inibir essa poluição silenciosa que ocorre cotidianamente no solo, que chega até as águas e acumulam no interior das represas. Pois, estes produtos não são biodegradáveis, em sua maioria.

Nesse caso estamos diante de algumas questões que precisam de respostas para organizar a lógica do nosso modelo de desenvolvimento.  Solos poluídos produzem frutos sadios? Água poluída produzem peixes sadios? O mercado aprecia de igual forma produtos poluídos e não poluídos? O produtor terá o prazer em produzir peixes, sabendo que muitas vezes eles carregam em si produtos químicos que foram transferidos do solo para água e da água para essa criação e que ao serem ingeridos, transferem parte destes produtos ao corpo dos seres humanos? Certamente não.

Então nesse início da terceira década do século XXI, nossa sociedade está diante de um problema que compromete o custo de sua propriedade, compromete a qualidade do que se produz. Além dessas questões, está a relação trabalhista, presente na prática produtiva que usa da mão de obra do pequeno proprietário – familiar – de diaristas e ou empregados que atuam no campo. Esses fatores provocam a sociedade como um todo, trabalhadores rurais e proprietários a refletir sobre: Produzir e encontrar dificuldade em vender para alguns consumidores que estão exigindo produtos que apresentam menos agrotóxicos em sua produção. Muitos nem é por questões ligados a degradação ambiental. Mas, por questões ligadas a sua saúde pessoal e de sua família; Os trabalhadores que atuam no campo já apresentam entre eles, uma certa resistência em realizar trabalho que faz uso do agrotóxico - veneno - é que ele corre o risco de sofrer contaminações. Muitos já têm a consciência que as substâncias químicas poderão vir a acumular lentamente em seu corpo, dificultando assim a contratação de mão de obra para atuar nesses serviços; Possuir água e solos contaminados é um fator que desvaloriza a produção e a propriedade. Os fatores citados e o hábito de consumir peixe criando um mercado interno na região oportunizando renda aos criadores/produtores são sensíveis e tende a forçar a preservação ambiental, nesse início de século em nossa região. Os fatores descritos acima estão diretamente ligados ao faturamento econômico dos produtores, a elevação dos custos de mão de obra, a preservação da saúde da sociedade e a perda de valor de seu patrimônio - a propriedade e produção; a questão da poluição do solo e dos recursos hídricos torna nesse momento histórico e centro das atenções de nossa sociedade que busca pela manutenção de seus rendimentos e do valor do seu patrimônio, bem como indiretamente da saúde da sociedade. Para alcançar o que busca (objetivos), preservar será preciso.

Arilso Teixeira Maria

Licenciado em Geografia

Especializado em Ecoturismo: Interpretação e Educação Ambiental.